{"id":3886,"date":"2020-03-08T17:00:24","date_gmt":"2020-03-08T17:00:24","guid":{"rendered":"https:\/\/thelovefood.pt\/?p=3886"},"modified":"2020-03-08T17:00:27","modified_gmt":"2020-03-08T17:00:27","slug":"o-meu-parto-por-todas-as-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/thelovefood.pt\/en\/2020\/03\/08\/o-meu-parto-por-todas-as-mulheres\/","title":{"rendered":"O meu parto \u2013 por todas as mulheres"},"content":{"rendered":"<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1160\" height=\"1547\" data-src=\"https:\/\/thelovefood.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/IMG_2213-1160x1547.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3887 lazyload\" data-srcset=\"https:\/\/thelovefood.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/IMG_2213-1160x1547.jpg 1160w, https:\/\/thelovefood.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/IMG_2213-scaled-600x800.jpg 600w, https:\/\/thelovefood.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/IMG_2213-800x1067.jpg 800w, https:\/\/thelovefood.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/IMG_2213-1152x1536.jpg 1152w, https:\/\/thelovefood.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/IMG_2213-scaled.jpg 1536w, https:\/\/thelovefood.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/IMG_2213-320x427.jpg 320w, https:\/\/thelovefood.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/IMG_2213-560x747.jpg 560w, https:\/\/thelovefood.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/IMG_2213-1920x2560.jpg 1920w, https:\/\/thelovefood.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/IMG_2213-2304x3072.jpg 2304w, https:\/\/thelovefood.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/IMG_2213-640x854.jpg 640w, https:\/\/thelovefood.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/IMG_2213-1120x1493.jpg 1120w, https:\/\/thelovefood.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/IMG_2213-1600x2133.jpg 1600w, https:\/\/thelovefood.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/IMG_2213-2320x3093.jpg 2320w, https:\/\/thelovefood.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/IMG_2213-1280x1708.jpg 1280w, https:\/\/thelovefood.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/IMG_2213-2240x2987.jpg 2240w, https:\/\/thelovefood.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/IMG_2213-scaled-uai-900x1200.jpg 900w, https:\/\/thelovefood.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/IMG_2213-scaled-uai-720x960.jpg 720w\" data-sizes=\"(max-width: 1160px) 100vw, 1160px\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" style=\"--smush-placeholder-width: 1160px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 1160\/1547;\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Escrevo isto para me libertar desta dor.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ajudar e dar voz \u00e0s mulheres que passaram pelo mesmo ou pior. Sei que s\u00e3o muitas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para que possa mudar a maneira como as mulheres s\u00e3o tratadas quando s\u00e3o m\u00e3es nos hospitais p\u00fablicos deste pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Tinham-me marcado uma cesariana para o dia 3 de Mar\u00e7o porque o meu beb\u00e9 estava sentado. Sentia-me muito desiludida por n\u00e3o poder ter um parto natural e por n\u00e3o deixar que o meu filho nascesse quando ele quisesse. Estava ansiosa pelo que viria. Mas confesso que nunca pensei na dor. Felizmente o meu filho acabou por decidir nascer antes da data marcada.<\/p>\n\n\n\n<p>As \u00e1guas rebentaram no dia 1 \u00e0 noite, enquanto estava a passear os c\u00e3es. N\u00e3o rebentaram ao estilo novela, como um garraf\u00e3o de \u00e1gua a explodir. Foi uma pequena perda.<\/p>\n\n\n\n<p>Fui para o hospital de seguida, entrei logo para as urg\u00eancias e uma enfermeira enfiou-me (a palavra \u00e9 mesmo \u201cenfiar\u201d) a m\u00e3o pela vagina, o que fez com que as \u00e1guas, dessa vez sim, explodissem g\u00e9nero telenovela. Tratavam de mim como se eu fosse um embrulho.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7ou a\u00ed o p\u00e2nico. O meu filho estava dentro de mim sem l\u00edquido amni\u00f3tico e eu estava \u00e0 espera. N\u00e3o havia quase movimento naquele hospital, no entanto era tudo muito lento. O meu corpo come\u00e7ou naturalmente a tremer de medo como se estivesse nua no meio do \u00c1rtico. Foi uma verdadeira quimera de autocontrolo para me darem a epidural sem que me mexesse.<\/p>\n\n\n\n<p>Testaram a epidural em ambas as pernas, com um spray. Sente quente ou frio? E agora? Ainda sente contra\u00e7\u00f5es? Sim, sentia, sentia o spray frio, sentia tudo. Refor\u00e7aram a dose, mas praticamente sem efeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo assim, porque a enfermeira me tinha rebentado o l\u00edquido onde o meu filho sobrevivia dentro de mim, e porque eu tinha jantado e n\u00e3o podia levar anestesia geral, fui para o bloco operat\u00f3rio. E eu n\u00e3o podia, aparentemente, ter um parto natural, dado a posi\u00e7\u00e3o do beb\u00e9. Tinham passado 3 horas.<\/p>\n\n\n\n<p>No bloco, amarraram-me os bra\u00e7os \u00e0 maca. Cortaram-me a barriga e tiraram o meu filho, sem que a epidural estivesse a funcionar como era suposto. Eu gritei, gritei tanto que nem ouvi o meu filho chorar quando nasceu. S\u00f3 vi que o levaram embora durante uns segundos, para longe de mim. N\u00e3o o puseram logo no meu colo. S\u00f3 depois me desamarram e deixaram que lhe pegasse. Ele come\u00e7ou logo a mamar e a\u00ed a dor desapareceu completamente. Era uma inunda\u00e7\u00e3o de amor. Durou pouco.<\/p>\n\n\n\n<p>Levaram-no novamente para longe de mim enquanto me agrafavam o corte que me rasgou a barriga de um lado ao outro e depois levaram-me para uma sala escura, para o recobro, onde fiquei a pedir que me trouxessem o meu filho, num tempo indefinido que me pareceu uma eternidade. Creio que foi mais de uma ou duas horas. Chorei todas as l\u00e1grimas que ainda tinha e senti-me absolutamente profanada, desrespeitada, magoada, em tudo que envolvia o nascimento do meu filho.<\/p>\n\n\n\n<p>Estive cerca de uma semana no hospital, numa altura que coincidiu com a greve dos enfermeiros, o que fez com que tiv\u00e9ssemos servi\u00e7os m\u00ednimos di\u00e1rios. Houve pouca assist\u00eancia, apesar da que havia ter sido cuidadosa (apenas por parte das enfermeiras). De qualquer maneira houve noites em que nem sequer nos vieram desligar a televis\u00e3o, que seria o m\u00ednimo dos m\u00ednimos.<\/p>\n\n\n\n<p>Tinha tantas mas tantas dores que n\u00e3o me conseguia mexer ou ser autossuficiente.<\/p>\n\n\n\n<p>No meu quarto havia mais 3 mulheres. Iam mudando ao longo do tempo que eu \u201cacampei\u201d l\u00e1 e posso dizer-vos que apenas com uma, de parto natural, as coisas correram bem. N\u00e3o era uma m\u00e3e de primeira viagem. Na cama ao lado da minha estava uma rec\u00e9m-mam\u00e3 como eu, que tinha tentado parto natural e tinha feito tanta for\u00e7a que os seus olhos tinham ficado roxos no interior, de tanto puxar. Depois acabou por ser levada para cesariana com anestesia geral, porque tamb\u00e9m a epidural n\u00e3o tinha funcionado.<\/p>\n\n\n\n<p>Deram-me alta e eu nem conseguia praticamente andar ou levantar-me. Sentia um borbulhar na barriga, que eu disse ao m\u00e9dico que me deu alta, e ele disse que era da minha imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Cheguei a casa quando o leite estava a subir. Tinha tanto leite que acho que poderia ter alimentado todos os beb\u00e9s da regi\u00e3o e ainda sobrava. O meu peito parecia uma pedra, tinha dores horr\u00edveis e n\u00e3o sabia o que fazer para me aliviar, nunca ningu\u00e9m me tinha avisado do que poderia acontecer. Passei dias com panos quentes no peito e a tomar duches quentes para me aliviar. S\u00f3 passava quando o meu filho mamava, mas voltava logo a seguir.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentia-me a mulher mais feliz e mais apaixonada do mundo por ter gerado aquela criatura t\u00e3o perfeita. Mas sentia-me fisicamente p\u00e9ssima. E tudo foi piorando ao longo dos dias.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando fui mostrar os meus pontos ao Centro de Sa\u00fade, poucos dias depois, j\u00e1 estava com febre e comecei a deixar de sentir as pernas. Passei dois dias a dormir s\u00f3 com intervalos para dar de mamar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Retiraram o penso e a minha cicatriz parecia retirada de um filme de zombies. A enfermeira do Centro de Sa\u00fade entrou em p\u00e2nico. Tinha dezenas de agrafos de um lado ao outro da barriga, alguns deles em locais onde n\u00e3o havia sequer cicatriz. Os agrafos rasgavam-me a barriga de t\u00e3o inchada que estava. Fui reenviada para as urg\u00eancias do hospital. Novamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando l\u00e1 cheguei, com um medo e um des\u00e2nimo brutais, as m\u00e9dicas ou enfermeiras resolveram espremer a minha barriga, como se fosse uma grande borbulha infetada e indolor.&nbsp; &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Perante dores lancinantes e o meu desespero (e bem estoica fui!), fui levada para o bloco operat\u00f3rio novamente, para me limparem uma cicatriz que estava t\u00e3o infetada que j\u00e1 n\u00e3o tinha outra solu\u00e7\u00e3o. Tudo mal cozido, mal cortado, mal feito. N\u00e3o podia tomar nada para as dores porque estava a amamentar, e preferi suportar e manter a amamenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de tudo isto, a minha cicatriz ainda se mant\u00e9m disforme, inchada, enorme, de um lado ao outro da barriga (superior a 10 cm). Tenho de viver com ela todos os dias.<\/p>\n\n\n\n<p>Fiquei horas na fila no bloco operat\u00f3rio, mais uma vez sem o meu filho. Eu sabia que ele tinha fome e eu comecei a entrar em desespero. Chamei as enfermeiras para o trazerem at\u00e9 mim, mas nada. Muito tempo depois apareceu uma, com uma bomba para tirar leite. Para quem tem muito, muito leite como eu tinha era uma tortura tirar o leite com uma bomba. Era a solu\u00e7\u00e3o mais horr\u00edvel e desconfort\u00e1vel poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltei a ser operada, desta vez com anestesia geral. Sa\u00ed do bloco em p\u00e2nico, para ir alimentar o meu filho que estava faminto \u2013 n\u00e3o tinha conseguido tirar sen\u00e3o umas gotinhas de leite com a bomba.<\/p>\n\n\n\n<p>Demorei dias a ter alta, apesar de estar bastante melhor, porque calhou poder ter alta numa v\u00e9spera de fim-de-semana e n\u00e3o havia m\u00e9dicos a trabalhar.<\/p>\n\n\n\n<p>Fui violentada. Agredida. Mal tratada. Amarrada. Desrespeitada durante todo este longo processo. Tal como eu, muitas, demasiadas mulheres tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda hoje, 5 anos depois, sofro com o que me aconteceu. S\u00e3o danos f\u00edsicos, psicol\u00f3gicos que tenho de carregar, tentar aceitar, viver com eles todos os dias. Ainda hoje choro ao relembrar como se a minha cicatriz estivesse aberta.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o podemos ficar em sil\u00eancio. N\u00e3o podemos deixar que sejamos tratadas assim. N\u00e3o nos podemos calar.<\/p>\n\n\n\n<p>Partilhem nas vossas hist\u00f3rias. Reclamem. Libertem essa dor. N\u00e3o temos de ser super mulheres, n\u00e3o temos de ser abusadas, n\u00e3o temos de aguentar tudo. E a verdade \u00e9 que n\u00e3o aguentamos.<\/p>\n\n\n\n<p>Contem a vossa hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos parar com isto.<\/p>\n\n\n\n<p>Feliz dia da mulher.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>NOTA:<\/p>\n\n\n\n<p>Toda esta hist\u00f3ria passou-se no Hospital P\u00fablico de S\u00e3o Teot\u00f3nio em Viseu. Um lugar onde n\u00e3o vou querer voltar mais na minha vida.<br><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrevo isto para me libertar desta dor. Para ajudar e dar voz \u00e0s mulheres que passaram pelo mesmo ou pior. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3887,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"inline_featured_image":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-3886","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/thelovefood.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3886","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/thelovefood.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/thelovefood.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/thelovefood.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/thelovefood.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3886"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/thelovefood.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3886\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3888,"href":"https:\/\/thelovefood.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3886\/revisions\/3888"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/thelovefood.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3887"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/thelovefood.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3886"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/thelovefood.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3886"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/thelovefood.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3886"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}